Inovação e loucura, elas podem estar mais próximas do que você imagina…

“Você enlouqueceu”. A afirmação, assim categórica, é corriqueira nos corredores das empresas sempre que o cheíe, o colega, o cliente e até o subordinado se vê diante de uma ideia que não bate bem com certa cultura organizacional. Mais fácil, cómodo e seguro, então, é dizer que quem não bate bem é o autor da ideia, quando, quem sabe?, é a própria empresa que não está batendo bem com o futuro. Nesses embates, muitas vezes, revoluções produtivas são enterradas em nome da manutenção de um status quo que, adiante, pode ser o fator-chave da falência financeira.

A boa notícia é que, se o louco em questão topar com alguém antenado com os novos desafios de um mundo cada vez mais interligado e competitivo, haverá uma boa chance de ser diagnosticado, da noite para o dia, como um indivíduo valioso, estratégico, ouro em pó. Nesses casos, em vez da internação iminente num sanatório ou no olho da rua, um messias departamental surgirá de um recôndito gabinete com as ordens do dia: parabéns, você está promovido.

Não é de hoje que os mais ousados são tachados de loucos quando estão com a bola do futuro no pé. Galileu Galilei, ao cometer a insanidade de afirmar que a Terra se movia, arrumou um problemão com o Santo Ofício. Darwin continua levando sopapo e até já foi demitido de algumas escolas americanas… Claro que a História também ensina que nem sempre os loucos (diagnosticados ou rotulados) acertam. O Universo, por exemplo, ao contrário do que afirmou Wallus Grudjkieff, não é um corpo em putrefação. Mas sem o erro e o tempo para errar o acerto não se faz, e a História estaciona no passado.

Cientistas das universidades de Oxford e Cambridge sugerem que Einstein e Newton sofriam da síndrome de Asperger, um tipo de autismo que gera interesses obsessivos e causa deficiências no trato social. Sabe-se que Einstein era péssimo aluno, avoado, e a “máscara” einsteniana casa perfeitamente com o estereótipo do cientista louco. Em Phaedrus 245 (Platão), Sócrates afirma que os poetas são suscetíveis à loucura e que, sem ela, não obteriam sucesso. Doenças da psiquiatria são atribuídas a personalidades geniais, como Virginia Woolf e Hemingway.

Saindo do âmbito do científico e do artístico, é comum encontrar no comportamento e nas expressões dos grandes fazedores de fortuna aquele olho do visionário. E o termo “loucura” é bem apropriado ao se observar a maneira como os mega-especuladores brincam com os fluxos de capital, capazes de ganhar o mundo num dia e perdê-lo no outro. No livro “World War 3.0: Microsoft and Its Enemies”, o jornalista norte-americano Ken Auletta relaciona o sucesso de Bill Gates a uma loucura perigosa: “Gates é tão rico quanto louco, brilhante e arrogante. Seu estilo e o de sua companhia são napoleônicos”.

Mas, para além (ou aquém…) desses grandes vultos, há o dia-a-dia das empresas, onde a “loucura” circula ora ameaçando, ora acenando com soluções, a depender do perfil do louco e da capacidade daquele que o administra de lidar positivamente com a inquietude provocada pelo que sai do padrão. E, no mercado ultracompetitivo em que vivemos, parece que os pensadores do marketing se vêem impelidos a perceber que, ao terem ameaçados seus nichos de poder, os responsáveis por tomadas de decisão tendem a estigmatizar aquela minoria atabalhoada ansiosa por avanços, e que é preciso, portanto, abrir as janelas para estes indivíduos — que, conjugados à maioria que trabalha dentro das normas, formariam um mix ideal para uma empresa completa. Foi com a filosofia de dar um espaço de ócio criativo aos funcionários (no caso, todos, loucos ou cordeiros) que o gigante Google descobriu (para o bem ou para o mal…) o Orkut (o nome, aliás, é de seu inventor, que usou com bastante pertinácia os 10% de tempo vagabundo concedidos pelo big boss).

E interessante o testemunho do psicanalista Carlos Eduardo Leal, que lida com a angústia de clientes talentosos com dificuldades de progredir dentro de seus ambientes de trabalho, por terem suas ideias, tão cuidadosamente engendradas, desmerecidas por bocejantes carrascos.

-Atualmente existem grandes empresas que já enxergam que uma conomia sustentável também tem que agregar os valores pessoais, subjetivos, os seus empregados. Hoje, a empresa pensa a “loucura” como um sistema produtivo, é aquela que investe no ineditismo e num certo nonsense. Na Microsoft, o pessoal de criação trabalha muitas vezes num jardim. Este fio ténue que a loucura possui com a inovação é utilizado de forma mercadológica. Parece que os homens de marketing descobriram a loucura como conceito próximo do empreendedorismo. Mas ainda têm dificuldades com o incômodo que esta loucura produtiva provoca.

Outro profissional da mente humana, este especializado no pensamento de Foucault, Chaim Samuel Katz vê as organizações como estruturas com bordas delimitadas por seus modos. A loucura, então, tem que ser gerenciada dentro desses limites, para que as rupturas produtivas possam ser cultivadas sem riscos de catástrofe.

– A coisa pode ser resumida na seguinte equação: sem a quebra, a organização não evolui. Desde que ela não se deixe quebrar pela evolução…

Katz enxerga, na contemporaneidade, um crescente terreno fértil para a loucura, mas como sintoma de uma era em que a insanidade foi apropriada pelas instituições; é vendida pela indústria do entretenimento; e foi domesticada pelo uso-e-abuso das drogas da felicidade.

– Vivemos num sistema que resolveu e “arrumou”o problema da loucura, da degradação, do que é marginal. Pode-se manifestá-la de um modo bastante dissociado do sofrimento e circunscrito numa previsão. O grafite, por exemplo, foi para dentro das casas e das galerias. O marginal se tornou categórico, tem um preço de mercado muito alto, reconhecimento, e uma produção imagética que obriga-nos a acompanhá- los como “desejáveis”. A loucura, também, pode ser vivida integralmente através dos jogos eletrônicos e da publicidade, que vende o que existe e o que não existe. Por um lado, nossos brinquedos são imateriais. Por outro, o que tinha um caráter noturno, acessível apenas através do pensamento ou das ilusões místicas, se tornou corriqueiro, quase material. Se tudo vale, o papel da loucura, no pós-moderno, é de uma inovação que se iguala ao padrão — filosofa Katz.

Se isso é bom ou ruim para o futuro da humanidade, cabe à eterna corrente filosófica questionar, dialeticamente. Mas certo está que, se de génio e louco todos temos um pouco, nunca foi tão fácil, como prega a canção dos Mutantes, ser louco e ser feliz, no trabalho ou fora dele. Mas muito cuidado nessa hora…


Autor: Arnaldo Bloch, 27/07/2008

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