Criatividade e acaso, uma íntima relação

Ao se fazer um trabalho onde seja necessá-no gerar um grande número de idéias, depara-se com a dificuldade de se dar valor ou importância a tudo que saia do planejado e do esquematizado. Quando se trabalha com pesquisa, a tendência é seguir uma linha, um modelo estabelecido de conduta — o método científico de pesquisa — , não se dando importância aos “acidentes” que ocorrem no decorrer das experiências. Isso normalmente acontece quando se está voltado para um objetivo determinado e não se tem a mente preparada para aceitar esses resultados diferentes e casuais.

Por essa razão, muitos estudiosos da ciência alertam para a importância de, além do conhecimento do assunto e da experiência, manter-se sensível e de olhos abertos para ocorrências fora do planejado, pois o acaso proporciona a possibilidade de se defrontar com uma situação inusitada, e o ganho poderá ser valioso. A análise da sua real importância, dentro dos objetivos que se pretende atingir, é que decidirá sobre a sua utilização ou não.

Para designar essa forma de descobrir fenômenos ou coisas inesperadamente, Horace Walpole, em 1 754, criou a expressão serendipitidade. Isso, depois de ler um antigo conto de fadas oriental sobre “Três Príncipes de Serendip”, que estavam sempre fazendo descobertas por acidente e sagacidade, de coisas que não estavam procurando (…)”. Essa palavra, originada da palavra ceilandesa serendip e tradução literal de serendipity significa a “propensão de descobrir coisas por acaso ou em lugares inesperados”. Para se compreender melhor o acaso, são citados três tipos diversos de descoberta, onde ele é imprescindível:

  • Uma intuição a partir da justaposição de idéias: quando se compreende a sua ligação o ou se associam informações aparentemente desconexas na mente, estabelecendo entre elas uma nova e significativa relação (exemplo: procedimentos como brainstorming)’;
  • Uma intuição do tipo eureka: quando se observa algum acontecimento bastante comum e, sem esperar, percebe-se a analogia entre este e algum aspecto do problema que se esteve tentando solucionar, surgindo daí um lampejo revelador na mente já carregada com uma grande massa de informações relevantes;
  • A serendipitidade: quando se depara com um acontecimento incomum, ou com uma coincidência curiosa de dois acontecimentos não comuns, ou com um resultado experimental inesperado.

A origem da primeira intuição é inteiramente mental; a segunda nasce da interação da atividade mental com o
mundo exterior; e a terceira é encontrada externamente, sem uma contribuição mental ativa.

A história mostra que o acaso tem tido um papel fundamental nas descobertas: Cristóvão Colombo descobriu o Novo Mundo quando procurava um caminho para o Oriente; a descoberta da penicilina por Fleming; a descoberta da influência da rubéola na catarata congênita; o efeito da alta temperatura (febre) na geração de defeitos congênitos em bebês, etc. Diversos cientistas enfatizam a importância de se cultivar uma atitude receptiva à serendipitidade, pois as descobertas nas quais o acaso tem um papel significativo não são raras.

B. F. Skinner, em um de seus princípios informais da ciência, cita: “Quando encontrar alguma coisa interessante, deixe tudo o mais para estudá-la”. Segundo Dr. Robert Good, imunologista do Instituto do Câncer Sloan-Kettering de Nova York, “se dermos atenção a coisas que não se encaixam, teremos muito mais chance de fazer descobertas do que se tentarmos descobrir coisas que se ajustam…”. O professor Nikolaas Tinbergen comentou que “o observador bem-sucedido é aquele que não só observa de perto, mas também dá largas à imaginação enquanto observa”.

Com relação à geração de idéias, deve-se ter clareza de que o pensamento solto e livre de quaisquer limites ou restrições, com certeza, produzirá mais e, seguindo esse mesmo princípio, idéias mais criativas. A observação do ambiente de maneira ampla, o conhecimento do assunto tratado e a mente aberta para perceber o novo são fatores que contribuem para que um número maior de idéias flua. Estar atento aos indícios e fatos que surgem é possibilitar o enriquecimento das idéias, podendo utilizá-los sozinhos, agrupados com outra(s) idéia(s), aglutinados ou transformados. Por todas as citações encontradas na história e em particular na ciência, pode-se afirmar que a liberdade de pensar sem críticas ou censuras e a disposição de se alterar o curso do trabalho, quando se descobre algo interessante, conduzirão a uma maior qualidade na triagem das idéias e na escolha da melhor.