Intuição e o empreendedorismo

Intuição não é um talento misterioso. É o subproduto direto do treinamento e da experiência que foram estocados como conhecimento. A criatividade surge durante o processo de solução de problemas, que, por sua vez, depende do conhecimento, incluindo certa espécie de conhecimento que permite ao especialista compreender situações rápida e produtivamente.

Segundo Simmon (1984), ninguém alcança um nível mundial sem antes dedicar dez anos ou mais de intenso esforço para adquirir conhecimentos e habilidades na sua especialidade e sem que tenha vivenciado 50.000 “pedaços” (chunks, em inglês) de experiência. Bobby Fisher, que se tornou um grande mestre somente nove anos e alguns meses depois de aprender a jogar xadrez, é a única quase exceção.

Crianças-prodígio não estão fora dessa regra. Mozart compunha música aos 4 anos, mas não era música criativa. As suas primeiras composições de primeira classe foram compostas perto dos 20 anos. Picasso, cujo pai era um pintor profissional, pintou na sua infância, mas suas obras não alcançaram nível mundial até se mudar para Paris, já adulto.
Para Simmon, a criatividade é coisa reservada aos especialistas, e não aos amadores.

O que sugere que trabalho e persistência representam uma grande parte dos ingredientes da criatividade. Não nos devemos surpreender se muitas das pessoas criativas são workaholics (viciadas no trabalho).

E qual é a principal característica do especialista? É a habilidade de reconhecer um grande número de sinais ou indicações presentes em qualquer situação e, depois, recuperar da memória informações sobre o que fazer quando esses sinais específicos são encontrados.

Em virtude dessa capacidade de reconhecimento, especialistas podem responder rapidamente a situações novas, quase sempre com grande precisão. É claro que, analisada depois, a reação inicial pode não ser a correta, mas é correta em um número considerável de vezes e raramente é irrelevante. Grandes mestres de xadrez, olhando para um tabuleiro, irão geralmente formar uma hipótese sobre o melhor movimento em menos de cinco segundos e, em quatro de cinco casos, a hipótese inicial será o movimento que escolherão.

À s vezes usamos a palavra intuição como julgamento ou mesmo criatividade para explicar a habilidade dos especialistas em responder a situações no seu campo, quase instantaneamente, com relativa precisão.

O morador de uma favela tem uma boa intuição sobre como reagir a situações de perigo no seu bairro. O gerente deve ter uma boa intuição sobre como reagir a situações que normalmente encontra nas organizações. Assim, o gerente experiente, de posse de alguns dados contábeis, pode, em questão de minutos, dar uma boa idéia sobre as forças e fraquezas de uma empresa. Diante de um problema de pessoal da empresa, imediatamente poderá ele dar um diagnóstico da dificuldade e sugerir possíveis linhas de ação. Isso não quer dizer que os gerentes agem impulsivamente, mas que aprenderam os seus 50.000 chunks e podem responder “intuitivamente”.

Como conseqüência desse pensamento, as escolas de Administração não produzem gerentes especialistas, tanto por não cumprirem os dez anos como por não criarem o ambiente de situações organizacionais nas quais os sinais podem ser aprendidos e praticados.

A abordagem que Simmon faz da intuição fornece boas perspectivas de aplicação ao campo do Empreendedorismo, onde ela é essencial, já que tudo indica que a intuição tem forte vínculo com a experiência, podendo, portanto, ser aprendida.